#92 a obsessão por curadoria é sintoma do desinteresse em criar
e como poderia ser outra coisa, quando o mercado recompensa a reprodução acrítica? | tempo de leitura: 7 minutos
oie! seja bem-vinde a mais uma edição da makers :) eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. essa edição começa com um relato pessoal, mas bear with me, eu prometo que vamos chegar em algum lugar. a palavra curadoria está se tornando uma daquelas que é tão repetida que perde o sentido original. passei a me questionar sobre como a obsessão por curadoria expõe pessoas desinteressadas em criar e daí surgiu esse texto. vamos?
1. Role models
“A internet é um meio em que o incentivo à performance é inerente. No mundo real, você pode simplesmente andar por aí vivendo a vida enquanto as outras pessoas olham para você. Mas, na internet, você não pode só andar por aí e ser visível; para que os outros o vejam, você precisa agir, precisa se comunicar caso deseje manter uma presença virtual. E uma vez que as plataformas mais relevantes são construídas em torno de perfis pessoais, pode parecer — primeiro em nível mecânico, depois como um instinto codificado — que o principal objetivo dessa comunicação é fazer com que você pareça interessante. Os mecanismos de recompensa online imploram para substituir os offline, e então os ultrapassam.”
Jia Tolentino, em O eu na internet
Quando eu tinha 13 ou 14 anos eu passava 90% do meu tempo online no tumblr, consumindo vibes. Eu seguia muitas meninas normais, desconhecidas, mas que eu tinha como it girls; todas gringas, possivelmente dos EUA ou da Inglaterra,
e eu gastava meu inglês emulando todos os gostos delas: Arctic Monkeys, Cage the Elephant, adidas superstar e óculos redondos.
Em 2014 eu entrei para o ensino médio e decidi que finalmente seria como essas garotas. Cortei o cabelo no ombro, fiz meu pai andar todas as lojas de tênis comigo em busca de um adidas superstar número 36 e depois encomendei na Netshoes porque aparentemente em 2014 mulheres não podiam usar tênis superstar e homens não podiam calçar 36… e por fim, um óculos redondo. Também não estava disponível aqui em 📍 Xique-Xique - Bahia. Brincadeira, eu moro no Rio, tão cidade grande and yet tantas temporadas fashion atrás de London. Foi difícil, mas encontrei um óculos de sol redondo e perturbei a atendente da ótica pra trocar as lentes pelas minhas de grau. Estava pronto o meu novo look.
Pisei na escola e minhas amigas anunciaram: que tênis ESTRANHO, parece um hambúrguer (?). “Não, Relens (meu apelido da época), o legal é all star, meu deus, isso é suicídio fashion”.
Seis meses depois, todo mundo [no microcosmo escola-ensino médio-bairro residencial Freguesia/JPA] estava usando adidas superstar e suas leves variações + óculos redondos. Minha amiga Emily estava convencida de que eu era uma visionária, uma ditadora de tendências. And boy… I believed it.
O meu superpoder era a curadoria: em um mar de fotos de adolescentes estilosas, eu conseguia escolher a dedo quais eram mais cool e reproduzir de um jeito que fosse ao mesmo tempo diferente o suficiente pra chamar atenção, mas sempre palatável.
Por um ano ou dois, eu achava que era um mérito incrível “saber onde procurar as tendências”, fingindo que uma outra amiga nossa que também usava o tumblr não sabia exatamente o que eu sabia (se bem que ela era de outra vibe — cabelo colorido e estampa de aliens). Eu cheguei a acreditar que poderia ter uma carreira sólida na moda. E então… eu amadureci.
Eu percebi que não havia absolutamente nada de especial no que eu estava fazendo. Fui fazer outras coisas. Nunca mais pensei sobre a época em que eu acreditava piamente que havia algo de especial em mim por saber escolher a próxima armação de óculos tão bem. Até que
2. Esse não é um texto [só] sobre originalidade
“Livros, abas: tenho opções diante de mim e operarei uma costura entre elas. Todos esses livros, vozes, páginas ou links ficarão ligados por um fio, formando um outro texto, possivelmente infinito, ligado por essa linha (mais ou menos tensionada) que conecta frases, parágrafos, diálogos, algumas palavras, sempre um fragmento.”
Leonardo Villa-Forte, em Escrever sem Escrever
A criação pós era dos computadores foi invariavelmente transformada pela ferramenta de copiar e colar. Não só materialmente (é possível copiar e colar), mas num nível cognitivo: copiar e colar é uma das mil possibilidades dentro de um processo criativo, uma possibilidade dada, tanto quanto riscar o lápis no papel. A questão nesse texto não é se existe originalidade, qual a linha entre se inspirar e copiar, etc. Referências são inerentes à produção de conhecimento, cultura ou arte, seja por assimilação ou oposição.
Pessoalmente, eu acho meio papo torto quando um criativo fala demais sobre o livro Roube como um artista do Austin Kleon. Se você ainda precisa justificar porque a sua produção tem referências tão facilmente identificáveis, talvez você não seja tão autêntico mesmo. Mas a minha guerra é outra.
3. A obsessão do mercado com curadoria
“A apropriação e o deslocamento de texto, hoje, parecem ter como ponto de partida o espaço mental mutante que a web abriu para o pensamento. Além disso, como já dito, a oferta cultural nunca foi mais vasta. (…) Cada vez mais precisamos de curadoria. E, por isso, cada vez mais nos tornamos curadores ou recorremos a guias, ferramentas, manuais ou clubes.”
Leonardo Villa-Forte, em Escrever sem Escrever
Em 2025, formar uma opinião é considerado uma forma de ação. “Consumir” (eu odeio essa palavra) “conteúdo” (odeio essa também) e compartilhar links nos stories ou numa newsletter é chamado de curadoria e de alguma forma passa a ser equiparado com o ato de criar em si. Há pessoas por aí que não superaram a visão de mundo que eu tinha aos 14 anos. A estrutura da internet, com redes sociais centradas na identidade (perfis pessoais) e com botões de compartilhamento por todo lado não só possibilita como encoraja esse tipo de comportamento.
Nada me tira da cabeça que essa é uma crise não só de criatividade, mas de curiosidade. Falta curiosidade para fazer diferente do que você já viu e gostou — por que se dar ao trabalho?
Esse é o apelo da curadoria: se você não gosta de algo que vê, basta fechar a aba e passar para o próximo conteúdo. Depois de juntar algumas referências, você pode compartilhá-las com sua rede e receber os elogios por tabela (“obrigada por compartilhar esse texto [que você não escreveu nem influenciou, apenas compartilhou o link, uau]”). Totalmente diferente da criação: se você não gosta de algo que cria, você precisa lidar com isso. Precisa pensar, se auto observar e talvez o pior de tudo: você precisa tentar outra vez.
4. Curadoria 🤝 Aesthetic

“Goffman aponta para a diferença entre fazer algo e expressar o fato de fazer algo, a diferença entre sentir algo e transmitir um sentimento. “A representação de uma atividade irá variar, em algum nível, a partir da própria atividade, e portanto inevitavelmente a distorcerá”, escreve Goffman. (Pense, por exemplo, na experiência de curtir um pôr do sol em oposição a comunicar a um público que você está curtindo um pôr do sol.) A internet foi projetada para esse tipo de distorção. Ela funciona de maneira a nos encorajar a criar certas impressões, em vez de permitir que essas impressões surjam “como um subproduto incidental de [nossa] atividade”. É por isso que, com a internet, é tão fácil parar de tentar ser decente, razoável ou politicamente engajado, e apenas tentar parecer assim.”
Jia Tolentino, em O eu na internet
A curadoria é o simulacro perfeito para a criatividade. Fazendo um paralelo hiper direto com o trecho da Jia, fica fácil parar de tentar ser criativo e apenas tentar parecer assim. Se tornar um “curador” de vibes te fornece a estética sem o esforço (ou pelo menos o tempo) que a criatividade exige. É o verniz da autenticidade sobre uma peça oca.
“Ah mas qual o problema?”, bom, vamos ver. Não muda nada na minha vida se alguém burro, preguiçoso ou os dois pensa sobre si mesmo como um criativo. Aliás, existem até criativos de verdade que são burros e preguiçosos. Mas me incomoda a docilidade — porque esse tipo de comportamento é reforçado e recompensado pelo capital. O mercado ama pessoas assim, que compartilham e repostam, pessoas que não questionam, pessoas cuja autenticidade é milimetricamente calculada e portanto, passível de ser comercializada.
Como escreveu Tina He em Vibecore: the economics of authenticity, “sua identidade se torna ao mesmo tempo sinalização e moeda: autêntica o suficiente para gerar identificação, mas comprimida o bastante para circular sem atrito pelo sistema”.
A obsessão do mercado por curadoria expõe o quanto os atores desse sistema estão desinteressados em criar. E como poderiam agir diferente, se esse sistema recompensa qualquer simulacro palatável de criatividade enquanto ignora artistas independentes e dissidentes?
ufa, obrigada por ler até aqui! essa edição nasceu de um incômodo real e muitas trocas com amigos e colegas criativos. fique a vontade para continuar o papo respondendo esse e-mail! e se você acha que alguém que você conhece gostaria dessa edição, compartilhe:







Acho que é até possível fazer uma curadoria criativa, mas, concordo, isso não é o padrão na internet. Até a maioria do que se apresenta como pessoal e criativo tem uma cara de cópia preguiçosa voltada para o aplauso fácil dessas massas sem rosto. Acho que o que mais me constrange é justamente viver numa sociedade em que ser desleixado, porém ambicioso, tem mais valor que o trabalho humilde e devotado. Talvez o problema seja a opressão dessa massa indescritível e inidentificável que a gente chama de internet. Se achássemos os grupos que compartilham dos nossos mesmos valores a vida poderia ser um pouco melhor, mas talvez não mais fácil.
Eu nunca tinha percebido esse lance da curadoria, sempre pensei "ah, é mais um termo que a faria lima criou para se valorizar". O texto me fez refletir.