#111 pra que você quer esses minutos?
tempo desperdiçado, economizado ou vivido | tempo de leitura: 8 minutos
oie! seja bem-vinde a primeira edição da makers do ano :) eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. se você está vivo, talvez sinta com alguma frequência que não tem tempo o suficiente para fazer tudo o que gostaria. eu sinto o mesmo, e nessa posição é difícil não ser seduzida por ferramentas que prometem “economizar” tempo. o problema é que não consegui descobrir ainda pra onde vão esses minutos que eu economizo. esse texto nasceu dessa busca. vamos?
— E esta é a lavadora ultrassônica de louça e de roupas — informou Dodge. — Som em alta frequência passa através da água para eliminar sujeira e gordura em questão de segundos. É mergulhar e tirar. Bingo! Está pronto!
— E o que a mulher faz depois disso? — perguntou Khashdrahr.
— Depois ela coloca as roupas ou a louça nesta secadora, que seca tudo em questão de segundos e, para mim esse é um belo truque, deixa as roupas com um cheirinho natural de limpeza, de ar livre, como se tivessem secado ao sol. Tudo com esta pequena lâmpada de ozônio bem aqui, estão vendo?
— E depois? — perguntou Khashdrahr.
— Ela insere as roupas neste passador, que, em três minutos, cuida do que antes da guerra, com um ferro de passar, levava uma hora. Bingo!
— E depois, o que ela faz? — perguntou Khashdrahr.
— Depois está tudo pronto.
— E depois, o que ela faz?
Trecho de Piano Mecânico (1952), de Kurt Vonnegut
Há algumas semanas eu estava conversando com uma amiga — via WhatsApp, um detalhe importante — sobre a virada do ano. Ela me contou como foi a passagem dela, eu contei como foi a minha, yada yada yada. Enquanto digitava minha mensagem percebi que havia um novo ícone naquela interface, um lápis com um brilhinho ao lado. Aquele brilhinho que toda empresa usa agora pra sinalizar ferramentas de IA, numa tentativa de associar a tecnologia com mágica. Você sabe: ✏️✨
Eu não sei porque ainda me surpreendo; o Gmail já vem empurrando a possibilidade de escrever e resumir e-mails há alguns meses, e a opção de uma caixa de entrada inteligente agora vem ativada por padrão. Mas eu não converso com amigas por e-mail. Muitas empresas e profissionais usam o WhatsApp como meio de comunicação pra trabalho, mas temos que concordar que aqui a linha começa a ficar um pouco borrada, porque não é uma exclusividade. Conversas longas de amigos, famílias, tudo isso agora pode ser resumido caso você não esteja com tempo sobrando. E quem está?
Em um vídeo de 24 minutos que assisti enquanto tomava café da manhã, o youtuber James Pumphrey testa seis engenhocas que prometem economizar horas da sua vida; elas são bem diversas, de um boneco inflável pra desamassar roupas a um cortador de legumes a um dispositivo pra escovar os dentes em 20 segundos. É um vídeo divertido no qual, pra mim, independente do resultado, o primeiro pensamento sempre é “não deve funcionar direito” — porque, desde cozinhar até escovar os dentes, eu costumo achar que fazer as coisas de forma bem feita exige atenção e não combina com pressa.
A maior parte das pessoas parece concordar com isso, especialmente diante de dispositivos tão… parafernálicos. A materialidade desses objetos causa estranheza, algo que esse vídeo ressalta na thumbnail: vale a pena colocar um objeto estranho na boca pra economizar menos de dois minutos?1
Mas talvez as mesmas pessoas não questionem o fato de big techs incorporarem ferramentas de IA para ler, resumir e redigir e-mails ou mensagens pessoais em nome da produtividade e economia de tempo. A minha melhor hipótese é que a ausência de materialidade dessas ferramentas as torna mais fáceis de empurrar pro nosso dia a dia. Diferente dos trambolhos que Pumphrey examina em seu vídeo, elas surgem de forma silenciosa, gratuita (por enquanto2) e amigável (✨). Repare como a palavra “ajuda” está sempre por perto: “receba ajuda pra criar a mensagem perfeita, e-xa-ta-men-te como você quer”.
Depois de uns meses, é fácil e confortável publicar resultados de pesquisa que inflam a importância dessa tecnologia, dizendo que a maioria da população brasileira adota ferramentas de IA no dia a dia. O WhatsApp está instalado em 99% dos celulares no Brasil e conta com 147 milhões de usuários no país. A Meta AI vem sendo gradualmente incorporada não só ao WhatsApp mas também ao Facebook, Instagram e Messenger e os novos botões são convenientemente posicionados onde já havia outros botões que faziam outras coisas. A lógica é convencer as pessoas a usarem o dispositivo, e depois “comprovar” que ele é essencial pra sociedade e agora já foi adotado por todos, oh, é tarde demais.
Para Jonathan Crary, questão é mais profunda e dramática: as interações online por si só já nos dessensibilizam em algum nível. Ele escreve que
“Conforme o complexo internético se expande e se acumula, mais facetas de nossas vidas são canalizadas para dentro dos protocolos das redes digitais. O desastre está na incompatibilidade irremediável entre as operações on-line e a amizade, o amor, a comunidade, a compaixão, o livre desenrolar do desejo ou o compartilhamento da dúvida e da dor. Muitas dessas manifestações desaparecem ou são reformuladas em simulações esvaziadas (…).”
Não há voz, entonação, nem calor humano em mensagens de texto (e mensagens de áudio podem ser transcritas ou aceleradas), então qual é o mal em usar outros recursos? O autor reforça ao longo do livro que, embora mensagens via internet possam ser úteis para trocar informações e marcar encontros, o que acontece muitas vezes é que cria-se um falso senso de proximidade e comunidade no qual as interações digitais substituem as interações presenciais, levando a uma desumanização de todos nós.
Em Telescope, música da banda Cage the Elephant, Matt Shultz canta que o tempo é como uma folha no vento, não importa se foi bem gasto ou desperdiçado. Economizar tempo é uma falácia. O tempo vai passar de qualquer forma, então acho que prefiro que ele passe enquanto eu realmente escuto uma história contada por alguém que amo.
E se eu tivesse tempo sobrando, o que faria com ele? Se eu economizar 15 minutos de leitura de mensagens, será que consigo adiantar alguma tarefa de trabalho? Ou será que posso aproveitar pra aumentar meu tempo diário no TikTok? Pumphrey finaliza o vídeo das resenhas dizendo que mais importante do que o tempo que economizamos é como escolhemos gastá-lo.
Também tem a questão do impacto real dessa economia de tempo, tipo uma curva ABC. Poucas tarefas grandes (provavelmente trabalho, tarefas de casa) consomem a maior parte do nosso tempo, e pequenas tarefinhas (cuidar dos gatos, responder mensagens) ocupam o restante. De que adianta liberar esses minutinhos? Tempo livre de verdade é adquirido com divisão justa de tarefas domésticas, melhores condições de transporte (ou mais oportunidades de trabalho remotas que não consumam a vida do trabalhador), jornadas de trabalho menores, remuneração justa e férias. Tempo livre para descansar, se divertir, aprender algo ou mesmo investir em um novo negócio ou carreira são dias livres e não frações de hora salpicados em dias lotados. Essas promessas fragmentam a atenção e redistribuem minutos irrelevantes, enquanto mantêm intactas as estruturas que produzem escassez de tempo.
Alguns remanejamentos de tempo no dia a dia podem trazer conforto e são compreensíveis. Cozinhar pode ser ótimo, uma forma de se conectar com seus sentidos, mas também pode ser uma tarefa que sobrecarrega uma mulher já exausta. Nesse sentido, não me incomoda tanto a ideia de que o processo seja otimizado, terceirizado ou até eliminado. Mesmo que alguém tenha tempo, talvez só não queira fazer isso naquele momento (eu sei que eu nunca quero 🤪). Agora… conversar? Mesmo que você não queira conversar naquele momento, manter amizades exige algum esforço de ambas as partes. Nem que seja o esforço de compreensão quando uma resposta demora a chegar.
Aliás, acho que a terceirização da comunicação me incomoda mesmo nos e-mails corporativos. O papel deles é informar as partes envolvidas, garantir que todos estejam a par de tudo e alinhados. Agora estamos evitando tomar conhecimento sobre aquilo que nos compete? Eu não gosto da ideia de resumir um e-mail com IA porque eu me importo o suficiente com meus projetos pra querer saber o que foi dito.
Existe uma diferença entre tempo desperdiçado, economizado ou vivido. Se eu prestei atenção no que estava fazendo, se eu fiquei feliz ou orgulhosa, se eu aprendi algo… mesmo que eu pudesse ter feito isso em menos tempo, não sinto que foi desperdiçado, foi vivido.
Quero fechar a edição com uma trend que achei reconfortante: a analog bag. Uma bolsa recheada de coisas analógicas pra evitar o scroll infinito, seja em dias livres ou não. Porque no fim das contas, esses minutos soltos existem: as filas, os atrasos, as pequenas pausas que conseguimos cavar em dias lotados. O silêncio nem sempre é confortável (ou possível), então por que não preencher de forma mais intencional? O tempo vai passar de qualquer forma :)
ei, obrigada por ler até aqui! estou voltando aos poucos de um recesso (necessário) na newsletter, e gosto de misturar experiências pessoais com teoria sobre design e tecnologia. adoraria saber o que você acha desse formato, então fique a vontade pra comentar ou responder esse e-mail se tiver alguma dúvida ou sugestão. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)
Curiosamente, esse dispositivo é considerado o melhor do vídeo.
Como explica a Paula Cruz em Armadilhas: Reflexões sobre Design & Automação, “o uso gratuito de tecnologias em desenvolvimento para que o público crie dependência do produto ou serviço ofertado é uma das características da estratégia de marketing do Efeito Lock-in (efeito de aprisionamento), utilizada a torto e direito por empresas de tecnologia, especialmente big techs e start ups do Vale do Silício. Muito em breve, Midjourneys e afins podem se tornar serviços pagos e caros”.







Quando o Instagram me apareceu com a ferramenta de ia para responder stories eu achei o fim da picada!! Tipo, acho que eu mesmo posso chamar minha amiga de gostosa, Meta! ✨
Terminei de ler Piano Mecânico faz poucas semanas e destaquei o trecho da máquina de lavar roupas tambem (e o Kurt Vonnegut tem outra fala sobre "comprar envelopes na rua em vez de pedir pela Internet" que adoro igualmente)!
Outro ponto que tem me chamado a atenção e que vc pontuou é o ícone de "mágica" em tudo quanto é ferramenta de IA. Como se o ar etéreo escondesse toda a sujeira por trás (assim como "nuvem" virou símbolo de armazenamento, que são feitos de estruturas físicas medonhas). Enfim.. Ótimo texto!