#105 fiz um detox de redes sociais. e agora?
por que ainda estamos aqui? será que o problema sou eu? | tempo de leitura: 8 minutos
oie! seja bem-vinde a mais uma edição da makers :) eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. estou de volta depois de um pequeno hiato por conta das minhas férias e decidi escrever sobre algo levemente pessoal, mas que sei que incomoda muita gente: nossa relação com as redes sociais. eu fiz um detox por duas semanas, o mais longo que já consegui, e depois dele me peguei pensando de forma mais complexa sobre o assunto. vamos?
Fiz um detox de redes sociais por 15 dias e agora não sei como voltar pra elas
Fiz uma trilha de uns 315 km. A ideia dessa empreitada é sair de uma cidade até a outra, passando por vários lugares, a maior parte deles bem deserto. Acordar cedo, caminhar algo entre 25 e 35 quilômetros, parar em alguma pousada e descansar pra continuar no dia seguinte. Durante esse período escolhi ficar longe das redes sociais (inclusive o Substack), e no tempo que não estava caminhando no meio do mato ou subindo mil metros de altitude eu ficava conversando com animaizinhos, conhecendo pessoas novas e lendo. É tão gostoso quanto parece.
Tão gostoso que, quando voltei das minhas férias e as obrigações profissionais exigiram que eu checasse e-mails, respondesse mensagens e compartilhasse posts, eu me senti derrotada. Não só porque eu não estava mais vendo graça naquilo, mas porque eu sabia que, assim que eu voltasse pra esses aplicativos, cairia outra vez no uso excessivo. É um pouco culpa minha, por ser meio desmiolada, mas não só: redes sociais são projetadas para serem viciantes.
Uma amiga uma vez disse que “algumas multiplicações nunca devem ser feitas” — eu definitivamente não quero estimar quantas horas (ou meses, será que chega a um ano?) eu gastei no finado tumblr, no twitter, no instagram… Lido com o uso excessivo de redes sociais desde a adolescência.
No ano passado, justamente pensando na minha relação com o meu celular, eu li Nação Dopamina, da psiquiatra Dra. Anna Lembke. O livro discorre sobre o prazer e o sofrimento causados por estímulos de “alta recompensa”, desde os mais estigmatizados, como drogas e álcool, até os mais cotidianos, como compras ou redes sociais. É uma leitura de aeroporto, que simplifica conceitos de neurociência com metáforas e anedotas sobre pacientes viciados; mas pra mim, que não entendo tanto de hormônios e reações químicas cerebrais, foi uma boa introdução aos processos fisiológicos envolvidos na nossa relação com celulares e a internet. O que mais me chamou a atenção foi o ponto que Anna levanta no capítulo Jejum de Dopamina:
“Uma conversa constante no campo da medicina de dependência é se as pessoas que usaram droga de maneira adictiva podem se acostumar a um uso moderado e sem risco. (…) Mesmo quando a moderação é possível, muitos dos meus pacientes relatam que é exaustivo demais continuar e acabam optando pela abstinência por um longo tempo.
Mas e os pacientes dependentes de comida? Ou de smartphones? Drogas que não podem ser totalmente largadas? A questão de como moderar está se tornando cada vez mais importante na vida de hoje, por causa da absoluta onipresença de bens de alta dopamina, tornando-nos todos mais vulneráveis a um hiperconsumo compulsivo, mesmo quando não correspondemos aos critérios clínicos para dependência.”
Bom, aí está o meu problema: eu consigo ficar longe das redes sociais por algum tempo, desde que eu pare completamente. Mas assim que o meu detox oficial acaba e eu volto a usar as redes, é difícil fazer isso com moderação. Me pego escolhendo um tiktok longo para assistir enquanto escovo os dentes. Será que o problema sou eu?
Eu preciso estar aqui?
Em Terra arrasada: Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista, Johnatan Crary vai contra a ideia de que as redes sociais (e smart-coisas, e tecnologias adjacentes) são imprescindíveis. Elas estão por toda parte: WhatsApp pra marcar uma consulta médica, Instagram pra consultar o cardápio de um restaurante, iPads em salas de aula… Para o autor, isso não acontece por acaso. Ele escreve que
“Desde o começo, o acesso de um público global à internet sempre esteve ligado à captura do tempo, ao desempoderamento e à conectividade despersonalizada. (…) Para as corporações transnacionais, o acesso universal à internet permitia remodelar tanto o trabalho como o consumo, convertidos agora em ocupações 24/7 liberadas das restrições de tempo ou de lugar. Isso também criou possibilidades amplas e inter-relacionadas de monitoramento e de interpelação de qualquer pessoa que esteja conectada, além da simultânea intensificação da privatização social.”
Por isso, os mais convictos de que essas tecnologias são “impossíveis de evitar” são aqueles que se beneficiam de manter o mundo como está (oh boy) e, portanto, “formas de recusa radical, e não de adaptação e resignação, são não apenas possíveis como necessárias”.
Nação Dopamina deixa bem claro que a abstinência completa — uma recusa radical — pode ser o melhor caminho para alguém lidando com excessos. É certamente o melhor caminho pra mim, mas alguns dias isso não parece sequer uma possibilidade. Eu vejo o ponto de Crary sobre a recusa radical e na verdade eu concordo. Concordo que essas corporações me querem navegando por seus domínios pra que eu veja mais anúncios, pra que eu acredite que ao repostar algo eu estou me expressando politicamente e portanto não preciso fazer mais nada, e pra que eu me importe cada vez menos não só com a sociedade num geral mas com meus amigos e família e colegas de trabalho. Racionalmente eu sei. E ao mesmo tempo eu sou uma designer e artista freelancer, com projetos editoriais independentes pra produzir e financiar, e eu ainda não encontrei uma forma de viabilizar meu trabalho que não passe pelas redes sociais. Me esforço para ir a lojas e livrarias, participar de feiras de arte impressa, de eventos universitários sobre design, mas eles não acontecem com a frequência necessária.
Enquanto lia Terra arrasada, pensei bastante sobre isso. Se vou usar a internet para trabalho, ok: então vou acessar só pelo meu notebook, em horário comercial. Certo? Não, porque é terrível usar 90% das redes sociais pelo notebook. Eles fazem de propósito pra você baixar e manter os aplicativos no seu celular, que é móvel e está com você mesmo quando você sai de casa. Então, apenas dois minutos depois de postar o link para a pré-venda do meu novo livro ou compartilhar nos stories do Instagram que vou participar do Said da Ufrj no início de outubro… lá estou eu vendo publicações de pessoas que não me lembro de seguir. Porque eu não sigo. O Instagram deliberadamente mostra posts de perfis que eu nem sigo— o cenário está claro, eu acho.
É do Rio ou vai estar por aqui no dia 3 de outubro? Vem me ver no Said da Ufrj! Às 11h vou ministrar a palestra Por que designers devem escrever (e por onde começar)? e às 14h vou participar do painel O Mercado Editorial Independente Brasileiro, ao lado dos queridos Peu Lima (Delícia Impressa), Daniel Bicho (Risotrip) e Daniel Lameira (Seiva) :)
Uma outra armadilha de design é que as redes te trancam pra fora se você não tiver uma conta ou não baixar o aplicativo deles. Durante várias das minhas tentativas de ficar sóbria, em que desloguei das contas ou apaguei os apps, não conseguia ver nada que era compartilhado comigo. A frustração que isso causa é, mais uma vez, proposital.
Sinto que estou divagando, mas o que quero dizer é que se afastar das redes é uma briga difícil, não importa quantos argumentos racionais sejam colocados na mesa.
Existe um brainrot melhor que o outro?
Por muito tempo eu achei que podia “curar” ou “resolver” meu problema com as redes sociais, mas estou começando a aceitar que talvez não. Porque apesar de tudo isso, eu retomei o uso depois das férias. Faz sentido para o meu trabalho que eu fale sobre minha produção e os eventos de que participo. Tenho me vigiado com as boas práticas que todo texto sobre vício em redes sociais recomenda: não abrir os aplicativos procurando o que fazer, e sim quando souber o que precisa fazer, como mandar uma mensagem pra alguém ou postar/compartilhar uma informação específica; não usar as redes sociais como “descanso”; não usá-las enquanto faço outra atividade (cof cof escovar os dent—
Estou conseguindo manter meu tempo de tela tão baixo quanto estava na viagem: na média de 2 horas diárias. Se parece muito pra você, saiba que a média brasileira é de 5,4 horas/dia. Admito que isso só está acontecendo por conta dos livros que ando lendo; quando tenho 20 minutos entre uma tarefa e outra, ao invés de pegar o celular, pego meu kindle. O que eu acho muito bom, apesar de que em Nação Dopamina Anna Lembke fala repetidamente sobre sua compulsão por “romances baratos” (meu lance são suspenses baratos), e não consigo deixar de pensar: meu deus, então não posso fazer nada? Ela escreve:
“Tomei uma decisão consciente de voltar a mergulhar nos cuidados com os pacientes, focando nos aspectos do meu trabalho que sempre foram gratificantes. Fazendo isto, consegui largar a leitura compulsiva de romances baratos, para me voltar para uma carreira mais gratificante e significativa.”
Uma coisa meio desconfortável desse livro é que ele parece colocar no mesmo nível vício em drogas, em dispositivos eletrônicos e em… livros ruins. Me incomoda que ela associa essa gratificação a “ser útil” e melhor no trabalho, mas enfim, isso já seria uma outra edição de newsletter. Se ela fosse viciada em redes sociais, acharia os romances ótimos. Como eu disse, não é uma briga fácil, e eu não vou arrumar problema com tudo o que me diverte no dia a dia.
Brainrot é a palavra para conteúdos na internet considerados de baixa qualidade e seus efeitos psicológicos e cognitivos negativos nas pessoas. Talvez a literatura ruim1 se inclua nisso em algum nível. Mas sinto que estamos tão, tão fundo nessa deterioração que mesmo um pequeno passo é um passo. No momento eu sinto que qualquer coisa é melhor do que voltar a ter cinco horas de tela por dia.
Apesar de estar politicamente mais alinhada com as ideias de Crary, não consigo buscar uma pureza total. Trabalhar com criatividade de forma independente tem seus ônus. Na semana passada fechei um projeto de identidade visual com clientes que me encontraram através do TikTok, fazer o quê? Sigo tentando encontrar uma relação que me permita trabalhar, me divertir e ainda ter espaço para o silêncio e o ócio, mesmo que isso envolva aceitar uma forma de brainrot menos nociva na minha rotina pra equilibrar as coisas. Chego ao fim do meu detox (e dessa edição) com uma ideia nova pra mim: acho que minha compulsão não tem uma solução definitiva, e meu trabalho é seguir nesse rearranjo contínuo enquanto uma vida completamente alternativa não for possível.
ufa, obrigada por chegar até aqui. eu divaguei muito? acabei relendo bastante dos dois livros e ficava concordando e discordando de mim mesma. enfim, como é sua relação com as redes? já fez algum detox também? como foi voltar dele? fique a vontade para responder esse e-mail ou deixar um comentário me contando. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)
Favor não discutir comigo sobre um livro que você nem sabe qual é ser ruim ou não, ou se existe ou não literatura ruim — é óbvio que existe.







Amei!! Faz uns meses que estou tentando reduzir o tempo nas redes, porque percebi que, ao ficar estressada, o primeiro impulso era pegar o celular para evitar pensar naquilo. Vi um tiktok (olha a ironia) falando que agimos iguais pais que entregam o tablet para a criança parar de chorar. Só que, nesse caso a criança chorando é o nosso próprio cérebro. Não consegui parar de pensar nisso desde então kkkkk
depois da atualização dos termos de uso do instagram em julho, arranquei ele do celular sem dó. de longe, o que mais atrapalha nisso é que ninguém mais compartilha links de sites mas tudo conteúdo no insta, que (como vc apontou) só dá para ver lá dentro... enfim. me deixa triste saber que a internet privatizou desse modo, às vezes bate uma bad... mas aí leio esse tipo de reflexão como a tua e não me sinto mais sozinha.
obrigada por ser um ser pensante, hele!